quarta-feira, 26 de maio de 2010

A vida num rectângulo


Estava um sol lindo, que lançava os seus raios mornos sobre o casario...


O casario era cinzentão.... Nem o sol o animava... Pesava sobre ele o peso de cem vidas, mil histórias por contar... Mas lá no meio destacava-se um pequeno rectângulo branco...


Aquele rectângulo branco era o centro da harmonia do casario...

Todos os raios de sol se apaixonaram pelo branco, pela calma que o pequeno rectângulo branco transmitia...


No pequeno rectângulo vivia um casal... Viviam, trabalhavam, faziam tudo dentro daquele rectângulo...

Toda a gente se sentia atraída pelo rectângulo branco...

Toda a gente queria lá ir...


Um dia o casal abriu as portas do rectângulo...

Toda a gente entrou... Viu... Conheceu o pequeno rectângulo.... Toda a gente queria conhecer o desconhecido...


Mas o que viram não era aquilo que tinham imaginado...

O casal que lá vivia, trabalhava e fazia tudo, só se cruzava... Partilhavam aquele espaço exíguo e mal se viam... Já não se reconheciam... Levaram o cinzento da rua para dentro do rectângulo da harmonia...


O casal que tinha construído o rectângulo com tanto amor, carinho, paixão, agora vivia como estranhos, no pequeno rectângulo, que todos diziam ser o centro da harmonia do casario cinzento...


Assim de longe, o pequeno rectângulo branco transmitia harmonia, amor, paz...

Mas era tudo uma miragem....

Porque detrás daquele branco, pintalgado do amarelo do sol, vivia a rotina, as vidas separadas, o desamparo...




quarta-feira, 19 de maio de 2010

Cavaleiros alados....


Eram milhares, mas funcionavam como um só...

Perfilaram-se no cimo do monte...

Erectos...

Vazios...

Sem alma...

Com sede de sangue, com sede de vidas, com uma sede tão incontrolável que devastaria tudo na sua passagem...

Milhares de cavaleiros, sequiosos de vingança perfilaram-se no cume do monte...

Eram tão imensas as suas figuras, que uma nuvem negra se espalhou, envolvendo o vale outrora feliz, em sofrimento, desespero, opressão...


Perfilados no cume do monte os cavaleiros, aos milhares, cantaram, as suas vozes elevaram-se num prenuncio do fim dos tempos, as suas vozes embrenharam-se na terra, fazendo-a trepidar, fazendo-a tremer de terror...


De repente o silêncio, o vazio, a ausência do tudo...

Não se sente nada, a não ser a electricidade no ar...


O cheiro do medo espalha-se, cobrindo todo o vale...


Ouve-se ao longe um silvo agudo, dando inicio a algo nunca dantes visto, abrindo as portas do inferno...


Os cavaleiros começam a descer o monte, a uma velocidade aterradora, devastando tudo, arrebatando esperanças, violando vidas, destruindo amores, abrindo um caminho negro...

O medo no coração de quem os via vir era tal, que se transformavam em pedra, o terror era de tal forma, que as pessoas dilaceravam a pele, tentando salvar-se...


Os cavaleiros passaram, tudo levaram, tudo... Não ficou nada... O vazio....

Não ficaram para ver o fim...

Pois eles eram o fim...

segunda-feira, 10 de maio de 2010

A teoria dos Abrileiros


A teoria dos Abrileiros resulta duma amalgama de conversas, nomeadamente com um quase conterrâneo meu, na busca da explicação mágica da situação das coisas (entenda-se coisas como o estado do país!)...

Tudo começou numa bela tarde de Novembro (ou será Dezembro, bem acaba tudo em embro!), conversa puxa conversa e pumba, lá vamos nós falar no quê? No estado da nação, ou melhor, no desatino da nação, na confusão que isto vai!

Inteligentemente o meu interlocutor coloca a questão:

Mas afinal quando é que isto tudo começou?
Será que conseguimos identificar a raiz do problema?
Começamos a recuar no tempo, Sócrates, Santana Lopes, Durão Barroso, Guterres, Cavaco Silva, Mário Soares.... Blá, Blá, Blá e pumba vamos parar ao Salazar, mas bem, aí é recuar muito e não queremos bater mais nesse ceguinho, mas fica algo no ar, o 25 de Abril, e toda uma geração alucinada que emerge nessa altura.

Diz o meu interlocutor: a culpa é dos Abrileiros....

A culpa é dos Abrileiros.....

SIM, A CULPA É DOS ABRILEIROS!

Passo a explicar, passamos do oito para o oitenta, passamos da restrição do tudo, para a permissão do tudo, tudo isso nas mãos de pessoas imaturas e com pouca visão. Mas quem são os Abrileiros?

Os Abrileiros são os que fizeram o 25 de Abril, que se mantêm no "poder", são aqueles que têm uns tentáculos tão compridos, que se emaranharam neles e não conseguem sair, são aqueles que diariamente hipotecam o futuro das novas gerações, com politicas pouco visionárias, mas pior que isso, políticas que nos fazem recuar, perder direitos, perder os direitos fundamentais que cada ser humano deve ter, porque eu acredito seriamente que os direitos humanos estão em vias de extinção em Portugal.

Sinceramente não percebo, sinto-me defraudada enquanto cidadã, porque em vez de construirmos um futuro melhor, cada vez mais tememos o dia de amanhã, que é quase garantido ser pior que o de ontem.

Fez no outro dia 36 anos que foi o 25 de Abril!
Fez 36 anos que saímos duma ditadura!
Fez 36 anos que um bando de estarolas começaram uma revolução em que a sua principal motivação eram reivindicações salariais (se bem que há 36 anos não existiam estas duas últimas palavras!)!
Fez 36 anos que saímos das trevas, mas desenganem-se os esperançosos, ainda não vimos a luz...
O 25 de Abril é um grande marco, a esta data fazemos logo uma relação directa para a liberdade, para a mudança, para a abertura ao mundo!
Mas o que trouxe o 25 de Abril à minha geração? (Eu faço parte da geração que nasce depois do 25 de Abril, mas criada pela geração que o "fez").
Trouxe-nos liberdade de expressão, liberdade de escolha, acesso ao saber, acesso ao mundo, trouxe-nos coisas que nós nem sabemos, pois como sempre fizeram parte do nosso dia a dia, só as saberíamos identificar se déssemos por falta delas...
Trouxe-nos o tudo, mas neste momento sentimo-nos reduzidos ao nada...

sábado, 8 de maio de 2010

O meu balão cor de rosa...


Ontem deram-me um balão cor de rosa...

Era um balão lindo, que voava alto....

Toda a gente gostou do balão, uns tentaram apanhá-lo, outros tentaram ficar com ele, outros quiseram dar-lhe um destino incerto, mas eu quis o balão só para mim... Era tão bonito o meu balão...


Mas tornou-se complicado manter o balão, tornou-se um incómodo e eu deixei de saber o que fazer com o meu balão... Mas eu gostava tanto dele.... Não queria perdê-lo...


Então olhei para o céu, estava encoberto, chuviscava, mas era imenso, escuro, incerto, um desafio, impunha respeito, despertava curiosidade... Lentamente despedi-me do balão, olhei-o, afaguei-o e devagar, com movimentos carinhosos, desapertei o nó e senti aquele fio percorrer os meus dedos, suavemente, levado pela brisa da noite, numa intima despedida...


O balão subiu, primeiro a medo, o incerto é aterrador, mas continuou a subir, a descobrir, a rasgar o céu, o meu balão partiu à aventura, levado pelo sussurro da noite, levado pela melodia das palavras doces que só a noite acolhe, levado pelo vibrar dos corações apaixonados...


Eu fiquei cá em baixo, a ver o balão subir, a desaparecer no infinito do céu... O meu balão cor de rosa...


O meu balão partiu, mas a recordação da subida ficou gravada na minha mente... Porque a subida é algo terrivelmente emocionante...