domingo, 20 de junho de 2010

Três cavalheiros e um pintainho



Era uma vez três cavalheiros, senhores bem postos, como manda a cartilha do antigamente. Gente recta, bom coração, princípios centenários, três indivíduos que tornavam o mundo um sitio melhor.

O primeiro cavalheiro era o Sr. Pai de Todos.

O Sr. Pai de Todos onde quer que fosse enchia a sala, devido ao seu tamanho (homem alto, possante, voz grossa) e ao tamanho do seu coração, homem dotado de uma vontade de viver extraordinária. Uma das principais características era a sua brusquidão, de tal forma natural, completada por um olhar meigo, que desarmava qualquer um. Tomava conta dos assuntos problemáticos de todos (daí o seu nome), conhecia as manhas de cada um, melhor que a palma da mão.

O segundo cavalheiro era o Sr. Salomão.

O Sr. Salomão, tal como o nome indica, tentava aplicar em seu redor a harmonia e o equilíbrio, todas as suas opiniões eram dotadas de tal argúcia e inteligência, que o mais indignado dos homens se vergava perante ele. Uma das suas principais características era a timidez, escondida atrás de um olhar curioso e inteligente. A sua presença transmitia calma e segurança. Trazia paz de espírito as almas mais inquietas, mas ao mesmo tempo confundia, pois no fundo dos seus olhos castanhos havia sempre sentimentos indecifráveis, que a todos deixavam intrigados. Era talvez o mais enigmático do grupo.

O terceiro cavalheiro era o Sr. Pudores.

O Sr. Pudores, nada a tinha a ver com o nome, pois não era pudorento, mas foi um nome que lhe caiu com tanta graça e encanto, e como ele em petiz foi o único da sua pandilha que não teve alcunha, que ficou Sr. Pudores, para o bem e para o mal. O Sr. Pudores tinha como principal característica a capacidade de leitura das pessoas, era tão perspicaz nisso, que conseguia ler coisas que as pessoas desconheciam. Dotado de uma generosidade desmesurada, capaz de actos de ternura inimagináveis, o Sr. Pudores cativava todos à sua volta. Temido pelas suas fúrias, que deram origem a lendas e histórias que assustavam as crianças à noite. Era um homem de extremos, mas com um fundo tão bom e generoso, que das fúrias só ficaram mesmo as lendas.

Como sempre e habitual, os três cavalheiros almoçavam juntos, podia não haver novidades, podia não haver histórias, agora o que não podia mesmo era haver refeições sem a companhia uns dos outros, estavam de tal forma interligados, que conseguiam comunicar secretamente através dos olhos (mas nunca foi provado se possuíam capacidades telepáticas, apesar de correrem fortes rumores a comprovar esse facto).

O quarto elemento do grupo era uma figurinha, pequena, mas nada apagada, jovem, destemido, pêlo na venta, era um pintainho.

Tinha muita graça o pintainho, todo arrebitado e saído, abria o biquito e disparava em todas as direcções, mas sempre com muita graça (o pequenito era teimoso como uma porta e obstinado!), completava o quarteto, dando-lhe um toque invulgar, os mais tapados ficavam baralhados, os mais astutos imaginavam mundos e fundos, os tolos, bem esses o que diziam não interessava, o que os tolos dizem não se escreve...

Era muito engraçado de ver os quatro, então quando começavam a disparatar, bem, sobrava para todos os lados...

Moral da história, bem esse fica para outro dia, porque para ser sincera, a história ainda não acabou, logo como pode haver moral?

terça-feira, 1 de junho de 2010

Coração ao sol...


O pequeno coração estava escondido à muito, muito tempo...


Estava tão escondido, tão encolhido, tão resguardado, que se tinha esquecido de que cor era o sol...


Há muito tempo atrás o pequeno coração passava os dias ao sol... Deixando-se inebriar pelo seu calor... Ofuscado pelas suas cores... O coração amava o sol... Pulsava todos os dias para o sol...




Mas um dia uma nuvem desceu sobre o coração... A nuvem não estava provida de maus sentimentos... Mas tapava o sol... O sol que o pequeno coração amava, desapareceu... Por trás da nuvem... Tirando-lhe todas as razões para viver...


Passaram dias, anos, eternidades de tempos idos, que não voltariam... A Terra continuou a girar... Os relógios não pararam... O ciclo da vida continou, mas o coração estagnou.. Escondido num pequeno, inóspito buraco, o coração estagnou... Fechou-se, trancou-se, perdeu-se na melancolia dos dias passados e não vividos...


O coração esqueceu-se de viver, foi mirrando, desaparecendo, deixando-se levar pela letargia.. Coitado do coração...


Até que um dia, um raio de sol maroto conseguiu furar, tocar o coração, acaricia-lo com o seu calor... O coração de inicio não sabia o que se passava, que estranho calor era aquele que o envolvia, que o reconfortava, que o chamava... Que cores brilhantes, vibrantes eram aquelas? Mas deixou-se levar... Não teve forças para resistir... Sentiu-se flutuar... Sentiu-se acompanhado... Sentiu-se vivo...


O pequeno raio de sol salvou o coração... Tirou-o da amargura... Deu-lhe uma razão para voltar a pulsar... Devolveu-lhe o amor pelo sol...